terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Manoel de Barros (continuação)



  Do: O Guardador de Águas

''Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina.''

***
''A quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso''

***

Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
_ Imagens são palavras que nos faltaram.
_ Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
_ Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo).
Concluindo: há pessoas que se compôes de atos, ruídos,
retratos.
Outras palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.

***

Alfama é uma palavra escura e de olhos baixos.
Ela pode ser o gerne de uma apagada existência.
Só trolhas e andarilhos poderão achá-la.
Palavras têm espessuras várias: vou-lhes ao nu, ao fóssil,
ao ouro que trazem da boca do chão.
Andei nas negras pedras de Alfama.
Errante e preso por uma fonte recôndita.
Sob aqueles sobrados sujos vi os arcanos em flor!

***
Escrever nem uma coisa
Nem outra _
A fim de dizer todas _
Ou, pelo menos, nenhumas.

Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar_
Tanto quanto escurecer acende os vagalumes.

***
O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa liberdade com a luxúria convém.

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